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m i t o

a -b l u e -n o t e -4 -H S | t i m e n t i -l u a- k a- s u b i | g a r a g e -c o o k i n '

| Lapido na bo © 2001 Mito |

a -b l u e -n o t e -4 -H S

I'm just myself. That's the only way
you're going to win in the end anyway.
Just sit down and be you.

Horace Silver

The Cape Verdean Blues - performance visual de Mito - surge como homenagem à obra e personalidade de um dos nomes internacionais do Jazz cuja obra constitui um inquestionável manifesto em defesa dos princípios do humor, celebração e identidade aplicados à expressão artística e musical."I've been myself my whole life" - inúmeras vezes por ele proferida, a afirmação poderia seguramente constituir mote para mais uma das incontornáveis melodias de Horace Ward Martin Tavares Silva, o autor desse eterno "Cape Verdean Blues" onde a estratégia compositiva assenta na busca renovada de uma sonoridade que se diz plural, nascida de uma assinatura onde se encontram distintas raízes identitárias. Descendente de afro-americanos e filho de pai Caboverdiano, é desse fenómeno cultural de crioulização que nos fala Horace Silver sempre que escutamos as mesclas do seu piano hard bop numa música onde se cruzam referências às tradições rítimicas e melódicas de Cabo Verde. Por via do sangue se faz, assim, a descoberta do som em Horace Silver e pelo traço identitário recomeça sempre a aventura plástica do Mito, que nest'a blue note 4 HS renova alguns dos desafios essenciais presentes ao longo do seu percurso plástico e criativo: a constituição de uma obra em jeito de mapa onde se cruzam inscrições literárias e elementos oriundos da tradição literária e oral, fragmentos do quotidiano com música e poesia, espelhando uma natureza globalizada desde a origem. Tanto em pintura quanto na sua vertente vídeo, a pesquisa do autor celebra desde sempre um idioma plástico onde mancha e traço, cor e contorno se fundem e (in)definem para fazer nascer as águas de Mare Calamus, território pessoal de metáforas e toadas crioulas. Assim sendo, o princípio da mestiçagem sonora que eterniza a música de Horace Silver encontra um paralelo nas telas deste outro The Cape Verdean Blues cuja estrutura expositiva apresenta dois "territórios cromáticos" ligados entre si. Criando um contraponto entre os dois conjuntos de telas azuis e ocres, uma obra há onde a identidade cruzada de um peixe-homem-ave (Pet Serenade) subsiste ainda e sempre por entre céu, terra e água.A par dela, o vídeo-poema (a blue note 4 HS) apresenta-se como ponte experimental para uma outra face do seu trabalho baseado na pesquisa e junção do som e imagem. Nesta breve composição Mito retoma a utilização do sépia - suporte cromático de muitas das suas pinturas - para trabalhar as marcas imemoriais e, por vezes, quase que fotográficas, do som descoberto por H.Silver. Fragmentos de Song For My Father, Pretty Eyes e Cape Verdean Blues acompanham-nos, desafiando a escuta e o olhar numa trajectória guiada à imaginação dos mil caminhos da cultura crioula. Seguindo até ao lugar onde a memória de água pode ter som de um verdadeiro piano líquido.

Mafalda Serrano | Junho 2003

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t i m e n t i -l u a- k a- s u b i | e n q u a n t o -a- l u a -n ã o -s o b e

Nu ai ta bai Graciosa riba la pisca spritu di noiva branca | Vamos subir ao Monte Graciosa em busca do espírito da noiva branca

Narrativa popular caboverdeana

O imaginário do Homem sempre se viu habitado pela poética das ilhas como luminárias de diferentes expressões de identidade. Entendida como arquipélago de vivências, também a pintura de Mito sempre se fez habitar pelo mesmo idioma crioulo, ele próprio arquivo plural de cultura e memória.

As suas imagens recentes resultam desse mesmo processo de arquivar vivências e memórias manipulando figuras, textos ou grafias, que surgem inicialmente como simples elementos fragmentários de um universo pessoal desterritorializado. Recuperando velhos pedaços de jornal impresso, citando expressões quotidianas do crioulo, sobrepondo ou deslocando sígnos e figuras, o autor trabalha cada tela como lugar de inscrição e reapropriação de memórias. Na sua obra, é sobre essa superfície receptiva que a pintura nasce, feita exercício de colagem e reordenação. Instância de metáfora e manualidade.

Por vezes a estória encenada - ou coreografada - na sua pintura surge exactamente como montagem visual e discursiva: surpreendemos objectos e personagens actuantes ou dotados de expressão caligráfica.

Tal como acontece relativamente ao recurso à escrita e ao processo de assemblage, também a utilização do desenho e a composição da côr são aqui exercícios de manualidade. Água e pigmento interagem num processo de adensamento ou dissolução de contornos e superficies, que desde anteriores trabalhos vêm temperando as telas de um mare calamus que nos fala da pintura como poética da insularidade, migração ou desdobramento.

Essencial ao processo de manipulação dos fragmentos em colagem e ao uso da têmpera como modo de dinamização de cores e texturas, a acção da luz contribui igualmente para que o efeito da representação na imagem pintada se aproxime metaforicamente ao produto da revelação sobre película.

É essa celebração da luz e da sua acção alquímica sobre a percepção transformadora do real que esta exposição procura configurar. Adoptando como ponto de partida o fragmento de uma narrativa tradicional transmitida oralmente ao autor nas proximidades do Monte Graciosa, a memória dessa visão da natureza luminescente é aqui equiparada ao nascimento da pintura. É esse legado cultural mítico que se retoma e ritualiza em cada quadro. Timenti lua ka subi fala-nos, assim, da sombra da lua como palco de representação da imaterialidade.

Mafalda Serrano | Outubro 2004

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g a r a g e -c o o k i n '

A representação legitima da natureza, em pintura, submete o mundo aos gestos de corte e recomposição de crenças, arquétipos, grelhas ou ópticas de perspectiva. Estes mesmos gestos de corte e colagem - de fusão e deslocamento -, não constituem apenas um modo de representação da natureza; eles estruturam também a representação dos episódios e elementos identitários de uma história reconhecida como palco nobre da pintura.

É sobre a superfície historicamente habitada da tela que as marcas residuais se organizam enquanto discurso e alquimia de poéticas e elementos que a pintura sempre repensa, re-apresentando e reorganizando os dados da experiência. O mundo humanamente experienciado torna-se assim storia no decurso de um processo de recuperação da visibilidade. Ocorre uma nova espacialização dos tempos de vivencia e narrativas cujo elemento essencial será o próprio princípio de intervalo que duplamente define o processo de gestação plástica e esse mesmo discurso identitário que nos dá a ver cada imagem inscrita no quadro.

Sob o mote de Garage Cookin’, o autor retoma as referências à intertextualidade e mestiçagem de referentes tão comuns ao idioma crioulo quanto ao próprio processo de constituição universal da história e do conhecimento. Na sequência dos trabalhos concebidos ao longo da sua estadia em North Providence (Rhode Island, EUA) onde transforma o espaço de uma típica garagem americana em atelier de experimentação plástica, estes trabalhos reflectem uma nova etapa de pesquisa assente sobre os rituais de próximos ou longínquos quotidianos.

Mafalda Serrano | Março 2004

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LuminaDivinae® ©2008 Mafalda Serrano