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a n t ó n i o _ c h a r r u a

António Charrua

Um Mundo à Medida do Ser

Com António Charrua iniciamos sempre uma viagem múltipla em que palavras e imagens se cruzam, conversa desfiada em forma de rizoma. A trajectória começa por entre as íntimas arquitecturas da tela, onde a arte e o tempo coabitam. Olhamos cada composição intuindo nela a busca essencial do espanto inerente à alma humana. A inquietação patente no gesto de dar forma, nome e assim poder significar. Ressurge, então, a memória de André Malraux nas palavras do artista. “Esse grande homem e pensador, precisamente... É a ele que me refiro quando digo que a arte é isto mesmo: livre forma das Vozes do Silêncio.”Falamos acerca destas obras e da sua pintura como celebração da gestualidade. “Sabe, o gesto é para mim decorrente da emergência da própria força do acaso que deverá ser assumida, embora nem sempre ele faça lei. Encontro-o tão exacto e irrepetível quanto a própria vida ... Como quando encontramos alguém no decorrer da existência. Há sempre uma timdez, uma supressão no humano. Nunca dizemos suficientemente as coisas essenciais às pessoas importantes, como por exemplo isto: Amo-te ”.


No Museu de Évora vemos um conjunto não retrospectivo de obras onde algumas etapas se encontram ocasionalmente omissas ou sublinhadas. Prossegue o autor: “Não estão aqui presentes algumas obras do meio, até mesmo do princípio do meu percurso. Refiro-me, por exemplo, às obras dos anos 50”. E à medida da conversa, adivinhamos razão e afecto, abertura e pluralidade nas palavras que connosco partilha como pedaços de vivências resgatadas à beira do indizível. Porque as palavras de António Charrua pertencem ao território do olhar:” Sabe, há coisas que calo e não expresso. Porque na verdade a pintura não se ensina, exceptuando a componente meramente técnica”.

O trajecto deste artista integra um período de formação em engenharia e uma vertiginosa passagem pela arquitectura. Ainda na sequência da sua passagem pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa vem a conhecer Júlio Resende e José Régio, participando nas exposições de 1953 e 56 da Sociedade Nacional de Belas Artes e apresentando os seus trabalhos no espaço da Fundação Calouste Gulbenkian, um ano depois. Seguem-se os contactos com Fernando Conduto e uma bolsa de viagem pela Europa. Portugal encontrava-se formalmente atrasado, vivendo o hiato histórico no qual apenas o primeiro modernismo constituiria excepção. A Escola de Paris desempenhou, assim, o papel formador central em todo o contexto nacional e europeu da arte do pós-guerra: “Picasso e Miró fizeram um certo mundo das artes onde se baseia a pintura ocidental e até a americana ou asiática. A simbolização é que varia no tempo; a arte nasce sempre do vazio e é ela que se radica a si mesma. Disso mesmo já falava o homem da Renascença. O pôr do sol que diariamente olhamos é eternamente repintado e o próprio abstraccionismo decorre de uma acção secular de codificação de referentes”. A este proposito, recordamos novamente Malraux: “O ciclo aberto pela morte das formas encerra-se pela sua metamorfose. Em cada século, a forma definitiva não é exterior ao conflito com outra forma”. Charrua compõe telas onde a mancha é expressão do devir humano, objecto de feitura do quadro radicalmente dotado de autonomia e funcionalidade. “ Na minha obra há sempre a cor. A transformação do observador pelo objecto observado apenas acontece quando a arte opera, dado que a obra não deverá nunca ser inóqua. Penso que habitamos hoje novas evidências que apenas sensorialmente são identificáveis. O mundo passa a ser susceptível de incontorno quando é a própria inquietação que se cola ao destino ... O mundo existe hoje enquanto espectáculo e, como afirma Eduardo Lourenço, talvez nós habitemos o caos como se de luz se tratasse”.

O autor celebra a invenção plástica como labor nascente, arquitectado a partir da ordem interna do visível. ”Creio que o autor é um demiurgo e, efectivamente, alguma coisa terá de ordenar o processo da civilização. Até lá, viveremos no caos e a questão decorrente do mito platónico da caverna é a própria pergunta: O que será que nos servirá enquanto homens?... As artes mergulham no invisível e conduzem ao conceito de obra aberta. Assim sendo, a arte opõe-se ao cosmos e faz o mundo à medida do ser”.

Estas obras de António Charrua chegam ao Museu de Évora habitadas pela vida, seguindo de perto os indícios de alteridade de que dão testemunho. Oriundas de colecções particulares e institucionais, abrangem diferentes áreas da sua experimentação pictórica: “Existem aqui trabalhos que vieram da Suíça, Alemanha, de museus exteriores ou nacionais como a Gulbenkian e Serralves. Sabe ... gostaria de chamar antes fase de continuação às obras de instalação, porque estão íntimamente ligadas ao que hoje faço. Por exemplo, aqui está uma peça de grandes dimensões que poderá ser onda. Tem uma espécie de barco e uma mala e verdade: trata-se do projecto de uma “Viagem-Onde”. Onda que leva e trás, catrapáz!... (aqui poderia ter sido catrapús, mas eu não quis e não pús.Porque era demasiado evidente e, segundo Nietzsche, quando muito explanadas as coisas deixam por completo de nos interessar)”.

| in Arquitectura e Vida 2001 ©Mafalda Serrano |

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a n a_ h a t h e r l y


2000 © Ana Haterly

Hand Made

Obras Recentes de Ana Hatherley


Ana Hatherley (A.H.) nasceu no Porto, em 1929, mas vive e trabalha em Lisboa. Pintora e poetisa do grupo de vanguarda ligado ao Movimento da Poesia Experimental portuguesa, começou a expôr em 65, apresentando-se individualmente pela primeira vez na Galeria Quadrante , com os seus Anagramas concebidos quatro anos depois. Autora de um percurso visual representado em inúmeras colecções e instituições portuguesas e estrangeiras, A.H. regressa agora ao espaço do Centro de Arte Moderna onde já em 1992 mostrara as nítidas marcas de três décadas de trabalho presentes na sua Obra Visual composta entre 1960-90.

Desta vez, ao conversar sobre o seu actual projecto expositivo, A.H. prefere começar por sublinhar o carácter global das “obras muito recentes, algumas já deste ano. Há quase dez anos apresentei neste mesmo local uma retrospectiva. Agora trago comigo inéditos. Desenho e pintura, a preto e branco”. Ao perguntarmos qual a razão de ser da escolha, a autora retoma a referência à tradição dos processos de escrita “que, embora possa fazer uso de processos mecânicos, para mim assenta num processo de manualidade”. Hand Made é, então, o nome escolhido pela artista para traduzir o seu entendimento da pintura como processo de inscrição centrado na manualidade como exercício ancestral de construção de mundos. “Sabe que eu trato a tela como se fosse papel? Assumo que esta minha escolha tem uma razão de ser filosófica. E é também uma questão e fidelidade ao meu trajecto pessoal, desenvolvido ao longo de quase quarenta anos de trabalho”.

Perante estas novos trabalhos de A.H. observamos marcas de escrita como formas de permanência que se reinventam e nascem dos sinais outrora abertos pelos seus caligramas e poemas visuais: são marcas sempre descorrentes da interiorização de formas-pensamento materializadas com técnica e sensação. Talvez seja disto que A.H. nos fala, quando afirma buscar sínteses, ou essências.” Interessam-me as origens. As origens da escrita enquanto pintura de sinais. Aquilo que depois distingue os dois planos é apenas um processo de natureza cultural. Alguns autores contemporâneos falam muito desta abordagem da pintura pelo lado plástico da escrita, mas eu já descobri isso há muito tempo. Na verdade, eu medito sobre a escrita”.É neste sentido que Hand Made acontece no trajecto de A.H.: uma exposição de maturidade, onde a eterna dimensão escritural das suas imagens se dá a ver como fruto de um trabalho (meta)físico de labor e manualidade, onde o entrecruzar de linhas e sinais de leitura apela à compreensão da arte como trabalho de artesania. “Sim, existe esse lado artesanal. Na realidade esta é uma exposição do objecto único, na qual escolhi dar a quem olha uma leitura outra... Os Antigos disseram-me que o Mundo é o Labirinto ou o Livro de Deus. O artista cria um Mundo onde cada obra representa uma página. É isso que procuro dar a ver; quem conseguir e quiser ler, pois muito bem. Quem não conseguir, paciência ... Que hei-de eu fazer?... (gargalhadas)".

| in Arquitectura e Vida 2000 ©Mafalda Serrano |

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a l b u q u e r q u e_ m e n d e s

2000 © Albuquerque Mendes

Confesso

Esta primeira mostra antológica de Albuquerque Mendes assume-se como um exercício de desocultação de formas de re-apresentar o mundo em que o trabalho plástico decompõe o real nas inúmeras faces do possível. Percorrendo os diferentes níveis presentificados na sua obra, vamos integrando um conceito de identidade centrado no resgate e na in-formação de sentidos. É o autor quem o confirma: “Sim, podemos referir a existência de uma intensa atracção pelo uso da linguagem em certas situações, na minha obra. Estou a pensar na publicidade – que tanto marcou a minha geração ... Existia aquela frase líndissima do Ary que dizia: Minha Lã, Meu Amor ... e ainda outras”.

Albuquerque Mendes (n.1953, Trancoso) usa o humor como manifestação da sua apropriação visual do Mundo. Nela, os factos emergem como verdadeiros reagentes; indiciadores de uma espécie de alteridade da dimensão visual através da vivência histórica do sujeito. “A intensão é a de mostrar o meu trabalho no seu sentido mais íntimo. A arte deverá possuir um lado confessional, só podendo apresentar-se como verdadeira se for decorrente do espelhamento do sujeito. Nesse sentido, ela excede o patamar da ideologia e do dinheiro: a energia transmitida é o seu último reduto”. Tratando-se de um autor cuja obra se afirma como exercício sobre o conceito de duplicidade de sentidos – por actos de inversão de referentes e questionamento -, a observação de Confesso confirma a existência de sucessivas etapas de trabalho onde a pluralidade sígnica e simbólica se intensifica, multiplicando patamares expressivos. Algumas das salas do Museu de Serralves, bem como a Casa e a Capela, são agora habitadas por imagens de revisitação de um trajecto artístico polissémico, feito de rituais e vivências (des)sacralizados. “Pois, eu acredito mesmo que o prazer de construir nunca é retirado ao autor. O instante de canalização de energia é apenas imputável ao artista e é-lhe impossível furtar-se ao lado confessional do trabalho artístico. De rsto, enquanto sujeito, poderão criticar-me todas as omisões e ausências ... mas se me perguntar qual é o sabonete que uso, direi ser o mesmo Lux que nove em cada dez estrelas vêm usando há anos ... (risos)”.

Pintura, performance e instalação coabitam neste conjunto de trabalhos trazidos a público desde os anos 70 e 80, entes tradutores de um idioma sobre-realizado no qual os elementos sociais e estéticos são objecto de uma sistémica teatralização do devir humano. A.M. ainda me diz, a este propósito: “ A questão da linguagem é apenas isto: quanto mais culto for um povo, mais pão ou armas terá. Pela informação, a sociedade poderá desenvolver-se mais justamente, embora a obra não seja já vector absoluto de revolução. No fundo, creio que a relação com a Vida é feita de movências. O mesmo acontece com os conceitos de Bem e de Mal, a ideia de Arte e História. Sabe, eu gostaria mesmo é que as minhas obras fossem como o retrato de Dorian Gray: actuantes sobre o sujeito e criadoras de uma relação de atracção com o observador”. E quando lhe perguntamos pela aproximação criada entre corpo e objecto na criação de cada nova metáfora, insiste no seu entendimento da arte como modo de singularização: “Entre mim e a obra não admito mediação. Rejeito colaborações em tarefas tão simples como o esticar do algodão e do linho na preparação das telas ... É como o Nada do qual se origina o Todo. Esta proximidade física também está presente nos auto-retratos, onde a mim mesmo me desconheço, reencontro ou espanto”. Como o mito da pasagem ao outro lado do espelho, dizemos: “Talvez sim, se o acesso ao inconsciente corresponder à necessidade de reconquista de instantes de pacificação. O sonho encena os fragmentos de onde nasce cada quadro e chega a surgir cada exposição. Confesso é feita a quatro mãos, gerada conjuntamente com o comissário João Fernandes, para o Museu de Serralves, embora eu a tenha sonhado já montada, antes da sua realização”.

Um dia A.M. fundou com Gerardo Burmester o Espaço Lusitano do Porto, onde se manifestariam algumas das expressões mergentes da arte nacional, nos anos 8. Pertenceu ao Grupo Puzzle, tendo expposto regularmente pelo País e colaborado com diferentes jornais e revistas. Recentemente, o seu percurso expositivo passou a fazer-se pelo Brasil. “Sobre o início de tudo isto? ... Eu apenas quis ser padre ou pintor. Os meus desenhos na escola funcionavam por inversão de valores ... uma coisa horrível para os outros”. Ainda na cidade de Coimbra, onde estudou, acabou por ingressar no Círculo de Artes Plásticas da cidade, viveu o País respirando os ares de um tempo de resgate e reformulação. Depois da faculdade e dos anos de tropa “Foram os três filhos que passaram a constituir uma nova etapa. Mas, essencialmente, deixo correr ... Acredito piamente ter sido analçfabeto noutras vidas, porque adoro livros velhos. Carimbo os livros emprestados com um autro-retrato e as pessoas dizem-me depois que os viram noutro lugar ... E também sou frágil e angustiado, segundo dizem. Eu creio-me antes perfeccionista. Penso que a Arte é um veículo para chegar a Deus ... mas convém que tenha travões para que não o amputemos (risos) ... Afinal, a Obra simboliza o Desconhecido, não é?”

|in Arquitectura e Vida 2000 ©Mafalda Serrano|

 
 

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LuminaDivinae® ©2008 Mafalda Serrano