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a n t ó n i o _c h a r r u a | a n a _h a t h e r l y | a l b u q u e r q u e _ m e n d e s a n t ó n i o _ c h a r r u a
Um Mundo à Medida do SerCom António Charrua iniciamos sempre uma viagem múltipla em que palavras e imagens se cruzam, conversa desfiada em forma de rizoma. A trajectória começa por entre as íntimas arquitecturas da tela, onde a arte e o tempo coabitam. Olhamos cada composição intuindo nela a busca essencial do espanto inerente à alma humana. A inquietação patente no gesto de dar forma, nome e assim poder significar. Ressurge, então, a memória de André Malraux nas palavras do artista. “Esse grande homem e pensador, precisamente... É a ele que me refiro quando digo que a arte é isto mesmo: livre forma das Vozes do Silêncio.”Falamos acerca destas obras e da sua pintura como celebração da gestualidade. “Sabe, o gesto é para mim decorrente da emergência da própria força do acaso que deverá ser assumida, embora nem sempre ele faça lei. Encontro-o tão exacto e irrepetível quanto a própria vida ... Como quando encontramos alguém no decorrer da existência. Há sempre uma timdez, uma supressão no humano. Nunca dizemos suficientemente as coisas essenciais às pessoas importantes, como por exemplo isto: Amo-te ”.
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Hand MadeObras Recentes de Ana Hatherley
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a l b u q u e r q u e_ m e n d e s
Confesso Esta primeira mostra antológica de Albuquerque Mendes assume-se como um exercício de desocultação de formas de re-apresentar o mundo em que o trabalho plástico decompõe o real nas inúmeras faces do possível. Percorrendo os diferentes níveis presentificados na sua obra, vamos integrando um conceito de identidade centrado no resgate e na in-formação de sentidos. É o autor quem o confirma: “Sim, podemos referir a existência de uma intensa atracção pelo uso da linguagem em certas situações, na minha obra. Estou a pensar na publicidade – que tanto marcou a minha geração ... Existia aquela frase líndissima do Ary que dizia: Minha Lã, Meu Amor ... e ainda outras”. Albuquerque Mendes (n.1953, Trancoso) usa o humor como manifestação da sua apropriação visual do Mundo. Nela, os factos emergem como verdadeiros reagentes; indiciadores de uma espécie de alteridade da dimensão visual através da vivência histórica do sujeito. “A intensão é a de mostrar o meu trabalho no seu sentido mais íntimo. A arte deverá possuir um lado confessional, só podendo apresentar-se como verdadeira se for decorrente do espelhamento do sujeito. Nesse sentido, ela excede o patamar da ideologia e do dinheiro: a energia transmitida é o seu último reduto”. Tratando-se de um autor cuja obra se afirma como exercício sobre o conceito de duplicidade de sentidos – por actos de inversão de referentes e questionamento -, a observação de Confesso confirma a existência de sucessivas etapas de trabalho onde a pluralidade sígnica e simbólica se intensifica, multiplicando patamares expressivos. Algumas das salas do Museu de Serralves, bem como a Casa e a Capela, são agora habitadas por imagens de revisitação de um trajecto artístico polissémico, feito de rituais e vivências (des)sacralizados. “Pois, eu acredito mesmo que o prazer de construir nunca é retirado ao autor. O instante de canalização de energia é apenas imputável ao artista e é-lhe impossível furtar-se ao lado confessional do trabalho artístico. De rsto, enquanto sujeito, poderão criticar-me todas as omisões e ausências ... mas se me perguntar qual é o sabonete que uso, direi ser o mesmo Lux que nove em cada dez estrelas vêm usando há anos ... (risos)”. Pintura, performance e instalação coabitam neste conjunto de trabalhos trazidos a público desde os anos 70 e 80, entes tradutores de um idioma sobre-realizado no qual os elementos sociais e estéticos são objecto de uma sistémica teatralização do devir humano. A.M. ainda me diz, a este propósito: “ A questão da linguagem é apenas isto: quanto mais culto for um povo, mais pão ou armas terá. Pela informação, a sociedade poderá desenvolver-se mais justamente, embora a obra não seja já vector absoluto de revolução. No fundo, creio que a relação com a Vida é feita de movências. O mesmo acontece com os conceitos de Bem e de Mal, a ideia de Arte e História. Sabe, eu gostaria mesmo é que as minhas obras fossem como o retrato de Dorian Gray: actuantes sobre o sujeito e criadoras de uma relação de atracção com o observador”. E quando lhe perguntamos pela aproximação criada entre corpo e objecto na criação de cada nova metáfora, insiste no seu entendimento da arte como modo de singularização: “Entre mim e a obra não admito mediação. Rejeito colaborações em tarefas tão simples como o esticar do algodão e do linho na preparação das telas ... É como o Nada do qual se origina o Todo. Esta proximidade física também está presente nos auto-retratos, onde a mim mesmo me desconheço, reencontro ou espanto”. Como o mito da pasagem ao outro lado do espelho, dizemos: “Talvez sim, se o acesso ao inconsciente corresponder à necessidade de reconquista de instantes de pacificação. O sonho encena os fragmentos de onde nasce cada quadro e chega a surgir cada exposição. Confesso é feita a quatro mãos, gerada conjuntamente com o comissário João Fernandes, para o Museu de Serralves, embora eu a tenha sonhado já montada, antes da sua realização”. Um dia A.M. fundou com Gerardo Burmester o Espaço Lusitano do Porto, onde se manifestariam algumas das expressões mergentes da arte nacional, nos anos 8. Pertenceu ao Grupo Puzzle, tendo expposto regularmente pelo País e colaborado com diferentes jornais e revistas. Recentemente, o seu percurso expositivo passou a fazer-se pelo Brasil. “Sobre o início de tudo isto? ... Eu apenas quis ser padre ou pintor. Os meus desenhos na escola funcionavam por inversão de valores ... uma coisa horrível para os outros”. Ainda na cidade de Coimbra, onde estudou, acabou por ingressar no Círculo de Artes Plásticas da cidade, viveu o País respirando os ares de um tempo de resgate e reformulação. Depois da faculdade e dos anos de tropa “Foram os três filhos que passaram a constituir uma nova etapa. Mas, essencialmente, deixo correr ... Acredito piamente ter sido analçfabeto noutras vidas, porque adoro livros velhos. Carimbo os livros emprestados com um autro-retrato e as pessoas dizem-me depois que os viram noutro lugar ... E também sou frágil e angustiado, segundo dizem. Eu creio-me antes perfeccionista. Penso que a Arte é um veículo para chegar a Deus ... mas convém que tenha travões para que não o amputemos (risos) ... Afinal, a Obra simboliza o Desconhecido, não é?” |in Arquitectura e Vida 2000 ©Mafalda Serrano| |
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