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Silence
Dot Conv
A
história desta exposição decorre da natureza e arquitectura
particulares do espaço que a acolhe. O mesmo acontece com a escolha
temática do silêncio como modo de designar um projecto no
qual referentes ancestrais se cruzam com um certo imaginário tecnológico
de preservação das memórias. É
assim que, ao darmos entrada no espaço do Convento de S. Paulo,
podemos conhecer os mais recentes trabalhos de Carlos Neto
nos quais o tempo presente e a atemporalidade vão construindo novas
tramas de simbolização. Tudo porque - tal como nos diz o
autor -, “são a própria arquitectura
e a história do lugar que se deixam percorrer pela pintura”. Carlos
Neto recorda-nos as origens desta apresentação nascida da
colaboração entre a Galeria Quattro e a Fundação
Henrique Leote, sediada no próprio Convento, cuja acção
se desenvolve no sentido da preservação do monumento e da
sua memória. “A hipótese de trabalhar no Convento
acabou por funcionar também como um desafio que surgiu na altura
certa, levando-me a repensar as noções de corpo, ritmo e espacialidade.
O próprio nome da exposição sublinha este conceito de
itinerário , de transcorrência temporal de um espaço.
Joguei com a própria noção contemporânea do
acesso directo ou transversal à imagem e aos universos mediáticos
da realidade virtual”.
Carlos Neto [n. 1955 – Sintra] inicia a sua formação
artística com estudos de dança e coreografia para a dança
com Maryse Giselle e Ruben Marks. Entre 1982 e 86 trabalha em cenografia
para bailado, teatro e televisão, apresentando a sua primeira individual
de pintura, nesse último ano, no Interclub 17 de Paris. Seguiram-se
diversas colaborações estabelecidas a título nacional
e internacional com instituições, workshops ou galerias.
Integrada no grupo Grands et Jeunes d’Aujoud’hui em
Paris, a sua obra acha-se actualmente representada em Portugal, Bélgica,
Polónia, Emirados Árabes e Grécia. Do exercício do silêncio como estratégia de conquista
de conhecimento individual e intra-pessoal, terá partido Carlos
Neto para a estruturação de um trabalho no qual
a pintura quase se lhe equivale, enquanto ritual de depuração. “Acontece que, para mim, o conceito de silêncio imaginado
começou por ser uma ideia predefinida do cinza, depois quis trabalhar
a cor como factor de recepção essencial de contrastes. Daí
que muitas das formas sejam recorrentes, simbolizando ferramentas e funcionado
como ramos, aludindo a amibas ou outras formas relacionais. O movimento
de cada quadro expressa ainda rituais de encontro. As cores quase se apresentam
ao olhar como sínteses finais decorrentes da conclusão do
trabalho manual e de um processo da alma”. Para
o observador, é no rasto desta temática da manualidade que
aqui se redescobrem dois princípios constantes em toda a obra de Carlos Neto: a fragmentação do corpo e
a sua inscrição rítmica no plano da tela , sempre
sugerindo uma ultrapassagem visual dos limites do quadro. Tal como na
dança, esta pintura celebra o corpo como como suprema instância
relacional: “É certo que a pintura é, em si mesma,
ferramenta e ofício de desocultação, através
do silêncio. Talvez na minha obra o corpo tenha surgido sempre como
interface do mundo”. Em Silence Dot Conv a pintura representa o des-nacer do
corpo e também o seu retorno ao elemento espacial como habitáculo
ou território de (i)localização. A referência
temática ao domínio virtual é a derradeira instância
dessa relação que o corpo representado estabelece com o
exterior e que é configurada desde o interior da tela: “Sabes,
julgo que acabei por escolher eu próprio um caminho para a pintura,
trabalhando sobre a ideia de corpo e a sua ausência. E depois, um
pouco ao acaso, descobri uma expressão inglesa que traduz tudo
isso: wherever. O corpo é instância inscritiva e testemunho
de vivências, tal como quando olhamos para uma cama desfeita e abandonada”.
Acrescentamos nós que – ainda por recurso ao imaginário
da pintura – cada matéria é matéria pura, aura,
factor de celebração do espaço, destino do olhar
e promessa de transfiguração. Cada corpo desoculta pedaços
de vida quotidiana ancorados no silêncio e é exactamente
deste jogo de encontros entre a arte e a vida de que nos fala Carlos
Neto em Silence Dot Conv.
|in Arquitectura e Vida Nov 2000 ©Mafalda Serrano|
Todas
as imagens usadas com permissão dos autores
Yin
e Yang | 2011 © Carlos Neto
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