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2 0 0 1 : o d i s s e i a_ n o_ t e m p o | d e p ó s i t o

2 0 0 1 : o d i s s e i a_ n o_ t e m p o

Estas duas propostas expositivas inserem-se num programa que assume o desafio mais vasto de repensar a arte e a sua relação com os espaços urbanos, partindo de um conceito inscritivo da temporalidade. Desse princípio de avaliação temporal do espaço como primeira condição de representatividade da arte, também nos fala Luis Serpa. É ele o principal responsável, promotor e organizador desta 2001 Odisseia no Tempo, um Ciclo de exposições nascido da própria vontade de descoberta do seu criador.

“A verdade é que tudo começou com a simples compra de uma daquelas revistas de informática que nos oferecem um CD-Rom temático. Achei curiosa, na altura, a sugestão de uma História do Tempo que assumia Stephen Hawking como referência e centrava a raíz da teoria da relatividade na experiência artística. Concebi, então, este projecto retomando o imaginário de uma viagem ao desconhecido; a grande aventura, afinal, desenvolvida desde Marco Polo a Stanley Kubrick e cujo relato recomeça depois com Albert Einstein”.

Escreveu Stephem Hawking que – no ano de 1915 -, a teoria revolucionária nos sugeria o princípio da gravidade como consequência de uma nova ideia de tempo, equacionando-o curvo ou “arqueado” pela distribuição no Homem da energia nele contida. A inspiração inicial que serve a ideia já nascera sete anos antes, quando Einstein conhece um pintor que tinha caído de um telhad:”se a Terra não estivesse presente, o movimento do artista em queda-livre continuaria exteriormente, muito para além do edifício” (cit.S.H). É recordando estas palavras e o espanto por elas causado – e estabelecendo um conceito de trajectória entre opostos como “partida e chegada, nascimento e morte ou dia e noite” -, que Luis Serpa nos fala do espírito desta programação “assente na Vida enquanto percurso, viagem e epopeia. Foi ainda nessa sequência de intertextualidades decorrentes da ideia de Tempo, como fonte de todas as abstracções – e da definição de Calvino para a Odisseia como mito de todas as viagens - que decidi desenvolver um projecto cuja produção assentasse numa colaboração entre o Museu Temporário e a Galeria Luis Serpa Projectos, aos quais me encontro mais ligado e o Museu de História Natural que, para além da Câmara Municipal de Lisboa, se associou de imediato”.

É exactamente depois de uma primeira experiência de “incomunicabilidade” com o Museu da Ciência que a adesão ao programa por parte da equipa do Museu de História Natural foi quase imediata. Esta equipa responsável pela programação cultural do Museu integra nomes como os de César Monteiro e Liliana Póvoas que, a par do Prof. Galopim de Carvalho, consideraram a hipótese de cedência do espaço para seis meses de ocupação com intervenções de arte contemporânea. “Foi, aliás, essa excelente relação e a disponibilidade manifestada que motivaram a transformação da entrada do Museu por minha inteira responsabilidade, dado que falamos de um projecto concretizado sem qualquer tipo de participação ou apoio estatal”. Conversando ainda com os artistas, a estratégia de trabalho assentou no convite à concepção de projectos especiais - com obras inteiramente originais -, ou na reinserção de trabalhos em novos contextos metafóricos. É nesta sequência que nos surgem ainda as duas mostras paralelas de Daniel Blaufuks para a Galeria Luis Serpa Projectos e de António Lagarto para o Museu de História Natural.

Assim sendo, Lisboa. Pessoa. Exílio. Saramago de Daniel Blaufuks (D.B.) apresenta um conjunto de imagens antes inseridas num trabalho de 1999, realizado para três projecções em edifícios a convite do Festival dos Oceanos. Delas nos fala o fotógrafo citando as principais linhas temáticas desta encomenda centrada na Lisboa da obra de Pessoa e Saramago e nesta cidade como porto de abrigo para refugiados. D.B. concebe assim os seus suportes poéticos e visuais como pontos de cruzamento entre referentes colectivos e pessoais, onde a escolha de uma via intimista nos devolve “as Lisboas” por si “sonhadas, sentidas, pensadas”. Ou apenas pedaços de fragmentos, depois presentes na edição do Livro que reenquadra e acompanha ea exposição.

Espaço primordial de passagem e transposição de contextos; lugar das mais diversas envolvências e associações, a “escadaria” sempre poderá remerter-nos para o plano místico ou para o universo de erotismo presente em Nude Descending a Staircase de Duchamp. Escada para o Paraíso é a designação do trabalho de António Lagarto (A.L.) no qual este autor – em cujo percurso reconhecemos uma larga experiência nas áreas de cenografia e arquitectura de interiores, na concepção de figurinos ou projectos de artes plásticas, para além da colaboração com o arquitecto inglês Nigel Coates -, retoma a representação do “constante confronto entre um tempo físicamente real e um tempo ficcionado”, recorrendo ao jogo de palavras que assinala, segundo a poética visual de A.L., “o caminho para o êxtase” através da Arte.

 

| in Arquitectura e Vida Abril 2001 ©Mafalda Serrano|

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d e p ó s i t o

Instalação segundo um Conceito de André Guedes ...

Instalação segundo um Conceito de André Guedes com
Catarina Campino | Francisco Tropa | Susanne Themlitz

O projecto Depósito visa dinamizar o espaço da Casa Fernando Pessoa, nascido do encontro entre três artistas portugueses e contando com a disponibilidade institucional de Rita Rodrigues. Juntamente com Francisco Tropa e Leonor Antunes, André Guedes delineou a matriz inicial deste projecto orientado pela vontade de renovação da leitura e programação de um local impregnado de fortes implicações espaciais e simbólicas.

Nove jovens autores apresentam três blocos distintos de intervenções distribuidas pela Recepção, pelo Quarto de Fernando Pessoa e pelo Terceiro Piso da Casa do Poeta, formando um ciclo expositivo extensivo a Dezembro deste ano. Para além destas presenças, participam ainda Catarina Campino com Francisco Tropa e Susanne Themlitz, para além de Filipa César com Berta Ehrlich. “Em primeiro lugar, a ideia central é a a de constituir um arquivo referente às obras expostas. Em termos de imaginário poético, o conceito surgiu na sequência de um dos meus trabalhos anteriores onde já se achava uma referência transversal à obra de Mário de Sá Carneiro. Depois a Leonor Antunes interviu com a sugestão de que fosse concretizada uma maior extensão temporal, a par da abertura a um maior número de pessoas”.

Assumindo uma base de trabalho centrada no diálogo entre conceitos como permanência e pluralidade, a selecção dos autores surgiu sob a forma de alguins convites dirigidos a jovens autores cuja disponibilidade possibilitasse uma estratégia de colaboração harmónica no interior de um espaço arquitectónico; “algo difícil por este ter sido alvo de uma recuperação questionável. O importante é também salvaguardar a nossa posição de catalizadores. É isso que queremos fazer ... Para mim tudo decorre da continuidade estabelecida entre as minhas pesquisas desenvolvidas em torno da noção de inserção do sujeito no espaço”. É com um sorriso que André Guedes reconhece viver uma “relação problemática” com a Arquitectura, questionando nela a habitual imposição catastrófica no quotidiano onde se definem quadros de vida. Interessa-lhe antes criar convergências entre as ideias de exsitência e espacialidade, entendendo esta última como instância depurada e relacional.

Falamos aqui de um autor [André Guedes, n. 1971, Lisboa] cuja formação integra o Curso Objectos de Design da Sociedade Nacional de Belas Artes e a Licenciatura em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da UTL. Em 95 foi bolseiro Erasmus no Istituto Universitario de Venezia e, mais recentemente, foi-lhe concedida uma Bolsa de Apoio à criação artística pela Fundação Calouste Gulbenkian. Desde 1997 que dá aulas práticas de Desenho I no Curso de Arquitectura da Universidade Moderna, na qualidade de Prof. Assistente do Escultor Lagoa Henriques e tem participado em diversas mostras colectivas. Recentemente, vimos a sua exposição Olhar a Contemporaneidade ser integrada nas Festas da Cidade | EBAHL, e soubemos agora da sua intervenção no Projecto Depósito com Daniel Malhão e Hugo Guerreiro. A instalação chama-se Mesmo Aqui e retrata num vídeo em tempo real o desgaste operado numa alcatifa diaposta em toda a área do átrio da Casa Fernando Pessoa.

Susanne Themlitz ocupa o espaço da recepção desenvolvendo um conjunto de seis a oito desenhos de grande formato, expostos a par das intervenções vídeo de Catarina Campino – no Quarto de Fernando Pessoa – e de Francisco Tropa no exterior e Terceiro Piso do edifício.

Abordando o imaginário poético do local, os autores deste Depósito apresentam ao público obras de leitura autónoma em espaços não necessáriamente comunicantes. Todas as “outras histórias” são depois encenadas no e pelo olhar de quem observa, lembrando-nos que é pela subjectividade que reencontramos a poesia: “Por vezes a vontade das obras quase escapa à limitação espacial imposta pelas características do Depósito da Casa Fernando Pessoa. Mas a exigência de redução acabou por funcionar como pretexto poético de abordagem deste lugar e da sua relação com uma determinada escrita".

Paralelamente ao Depósito, encontrar-se-á aberto ao público um Centro de Documentação proposto por Suzanne Themlitz, assim possibilitando a consulta de elementos relativos às obras expostas e aos percursos dos nove artistas participantes. As restantes fontes de informação decorrem, então, do universo quotidiano de cada um, sob a forma de livros e catálogos, ou vídeos. “Eu, por exemplo, decidi levar um filme de Bresson que um dia me tocou por dentro. Chama-se Fugiu um Condenado à Morte, ou O Vento Sopra Para Onde Ele Quer”. O subtítulo é curioso e a obra fala-nos da estratégia de fuga de um lugar e da certeza dessa construção mental. Eu penso que me identifiquei com a convicção expressa pela personagem”, acrescenta André Guedes (risos...).

|in Arquitectura e Vida Out Nov 2000 ©Mafalda Serrano|

 
 

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