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As Cidades de Isabella

Isabella Cuccato nasceu em 1947 em Roncade (Treviso), vivendo e trabalhando em Milão desde 1962, onde iniciou os estudos de arquitectura e fequentou os cursos de história da arte de Mário de Micheli. Licenciada em 78 - com Aldo Rossi - pelo Instituto Universitário de Veneza trabalhou ao logo de uma década em projectos desenvolvidos um pouco por toda a Itália e no exterior, entre os quais se contam as colaborações com Ignazio Gardella, um dos mais significativos nomes da arquitectura italiana. Foi desde 87, dois anos depois da apresentação pública dos trabalhos concebidos para o Prato della Valle (Pádua) e para a Rocca do Noale (com Daniele Vitale) no âmbito da Bienal de Veneza, que a autora escolheu dedicar-se inteiramente à pintura inicialmente executada sobre madeira e tela para superficies murais. Começou por recorrer ao óleo e a outras técnicas da tradição mural num trajecto artístico presente em espaços públicos ou privados. Itália, Grécia, Suíça e Portugal são alguns dos países onde Isabella Cuccato começou por reinventar os dias de uma certa cidade:Cheguei à pintura por via de um desejo espontâneo que creio ser alimentado pelas imagens, perfis e luzes da paisagem veneziana da minha infância e que depois fui ligando às figuras pictóricas. Penso que nenhuma paisagem ou carácter social estarão tão impregnados de pintura e plasticidade como os italianos; digamos que podem até ser pensados como invenção pictórica. A minha postura radica, portanto, num exercício da arte em que o acto de fazer surge primeiro, seguido pela reflexão. Aquilo que proponho são apenas pensamentos que acompanham a construção do quadro”.

De prefigurações e memórias nos falam as tramas e cenografias presentes n’As Minhas Cidades levadas à Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, mostra actualmente apresentada pela autora com o Instituto Italiano de Cultura em Portugal. Mas existe ainda neste ciclo de imagens o desafio da emergência daquilo que poderemos perceber como um terceiro tempo gerado com base na ideia matriz de uma cidade. É que, através da projecção de arquétipos da urbe, cada quadro é plataforma de revisitação, novo óculo que enquadra as nossas tomadas de vista e através do qual assistimos ao conjugar de encontros entre o Eu e o Outro. Na obra de Isabella Cucato existe um jogo de reinvenção dos universos habitados que nos interpelam através do pretérito presente no seu discurso visual.

Talvez Isabella Cuccato queira radicar estas imagens no plano discursivo da própria história da arte, nunca negando as suas experiências precedentes no âmbito da figuração. A sua obra alimenta-se da percepção e age sobre o nosso olhar como filtro de uma viagem imaginada, intercalando correspondências entre Pintura e Temporalidade. “Sabe, eu tinha um arlequim na infância nascido do fantástico mundo do Carnaval e daquela extraordinária fixidez das máscaras .... Era um verdadeiro elemento-tipo do humano; uma representação das relações, do carácter extremo da definição de costumes. Radicava no mundo da côr e na sua possibilidade de acostar e interagir. Só mais tarde descobri a extraodinária importância do arlequim na pintura, desde a antiga tradição veneziana, até Picasso. Para mim, a pintura não é pura representação, é antes o meu modo de construir e arquitectar mundos. Os antigos detinham a extraordinária capacidade de recolher ambientes e atmosferas, figuras do campo ou da cidade. E, no entanto, cada pintor não se limitava a representar o conhecido; edificava a sua cidadela mental – para citar aqui a belíssima expressão do crítico Roberto Longhi. A arquitectura e a escultura apenas partilham a presença dos objectos no espaço. A primeira, acaba por criar uma espécie de segunda natureza habitável – sobreposta e paralela ao mundo natural, que é também uma parte do mundo encontrado por herança ... Penso que um dos temas do meu trabalho é mesmo a exploração desta relação natureza/arquitectura, na qual a arquitectura é reduzida à sua essência de quase formação mineral, oposta às formas do solo e apresentada como um universo frágil, mas autónomo. A arquitectura é reduzida aos seus arquétipos e o mundo natural é visto na sua esência figurativa. Quanto à pintura ... eu diria que ela observa as coisas na sua muda e secreta verdade”.

A pintura como testemunho: Giovanni Raboni – poeta e escritor – falou-nos um dia da pintora antiga existente em Isabella Cuccato. Foi ainda Rossana Bossaglia quem assinalou a existência de duas matrizes estruturantes na sua obra: a vivência do projecto arquitectónico como invenção pictórica e objectual, para além da sugestão das temáticas tardo-quinhentistas como plataformas de sublimação do real. No conjunto de obras exposto, estas suas cidades serão ainda representações singulares da multiplicidade do real, anichadas entre muralhas, colunas que se erguem e desdobram rumo ao mar como oposição plástica às estruturas sólidas. Olhar estas Cidades de Isabella Cuccato é recordar a vocação do arquitecto como descobridor do invisível; alguém que, após longa e árida viagem, sente desejo de uma e muitas cidades. E ancorado em terra, ousou agora conversar com o céu.


| in Arquitectura e Vida Set 2000©Mafalda Serrano|

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2001 © Isabel Sabino

O Dilúvio ao vivo, em directo e em diferido

A pintura de Isabel Sabino desafia-nos à criação de uma relação com o visível pelo lado da linguagem e da imaginação. Cada tela é entre-acto do fazer em devir, idioma de uma obra episodicamente habitada pelas narrativas que contam histórias do nosso saber do Mundo.

Apresentando-nos os mais recentes trabalhos da autora na Enes - Contemporânea, O Dilúvio ao vivo, em directo e em diferido não possui uma data de nascimento exacta; antes assemelhado à vida e à ancestralidade onde cada aparição se faz por “instante de baptismo”. Tal como nos conta a autora, “ tudo aconteceu como em tantas outras coisas ... Mas o momento central consistiu numa viagem de passagem de ano iniciada na manhã de 31 de Dezembro de 2000, quando – por entre amigos -, decidi saír de Lisboa rumo ao espaço inundado e uma casa situada em plena lezíria. A terreola transformara-se numa pequena ilha com apenas duas ou três ruas à tona da corrente. Viajámos até ao local num barco de bombeiros, acompanhados por pessoas desconhecidas, entre as quais estava uma senhora amedrontada segurando um terço ... Enquanto as águas barrentas eram cruzadas pela lancha, tudo se estranhava: as coordenadas geográficas e espaciais iam-se perdendo. A paisagem era toda cinzenta e só metade das copas das árvores estavam visíveis, por entre as marcas das subidas das lamas, velhos sacos de plástico rasgados e vento, com chuva à mistura”. A escolha do tema da individual foi definida logo depois.


Isabel Sabino (n.1955, Lisboa) expõe individualmente desde meados de 80, após ter iniciado a carreira docente na ESBAL, onde completou a licenciatura em Artes Plásticas /Pintura. A Agregação em Pintura pela Escola acontece em 92, antecedendo a coordenação do Departamento de Exposições da Amascultura, a presença na Academia Nacional de Belas-Artes e o completar da Agregação pela Universidade de Lisboa. Actualmente, encontramo-la como professora na Faculdade de Belas Artes desta instituição, onde coordena o mestrado de Pintura, sendo autora, entre outros textos, do livro A Pintura Depois da Pintura.

"Penso que a vida nos apresenta sempre uma forte sobreposição de registos: há uma espécie de sobrecarga informativa, na qual as consciências singular e colectiva se mesclam com diversos planos de acção. Durante a gestação deste projecto haviam todos aqueles e-mails sobre as mulhers do Afeganistão ... Penso que às tragédias mundiais e terroristas pode acabar por suceder uma estratégia de sobrevivência pelo humor, assi m um pouco como acontece com o processo e definição dos projectos criativos, em que o processo de catalização antecede a realização”. Os acontecimentos foram “escorrendo”, portanto: na sua obra existiam já algumas “coisas começadas” e a escolha do tema bíblico da (b)arca é retomada para trazer à luz da realidade visual o imaginário desse Dilúvio à custa do qual a Humanidade sobrevive e, às vezes, se diverte.

Por força das águas, a matéria de cada uma destas telas simula quadros arquétipos de uma ancestralidade tanto quanto transmuta a função de gestação e representação do real na pintura. Escolhendo aliar o pigmento à imaginação escultórica da criação pelo barro, a autora inscreve grafismos de gestos e corpos, fragmentos resgatados ao rio da própria vida. E é, então, que a alquimia acontece e tudo se transforma. Como episódio de diário, cada quadro é orgão do texto da vida que se recompõe para relativizar o Mundo, agora olhado e inscrito. Sentido desde os dois lados do espelho. “ Ainda durante a apresentação de Luzes (1990, Lisboa – Galeria Monumental) inicio uma pintura integrada neste mesmo conjunto de shaped canvases – muitas eram trípticos de formas não ortogonais, em tela. Tratava-se de uma obra por composição em espelho que permanecia sempre errada e que eu nunca conseguia dar por acabada. Somei-lhe camadas, tornou-se quase um objecto arqueológico intrigante e de resolução adiada.
Em 2000 cheguei a rasgar-lhe a superfície e a precisar emendá-la Nesta passagem de ano, já tinha as tonalidades de cinzas e bramcos e a estrutura aquosa da sua resolução final. De todas as obras do Dilúvio, é a mais antiga; onde a escrita automática e até uma assumida alusão a Michaux podem traçar uma ponte para a referência ao universo do inconsciente e ao imaginário do Todo”.

Informando-se o olhar pelo objecto observado, é o próprio processo de gestação física e simbólica da superfície do quadro que nos acompanha na recepção da imagem, num tempo que se suspende e alude ao próprio nascimento da arte, do conhecimento e do homem. É ainda a pintora quem acrescenta: “Interesso-me por essa espécie de pulsar da superfície, decorrente dos modos e meios de produção. Isto, para além da relativização da própria noção de tempo que, aliás, já esteve presente em anteriores trabalhos. Estas telas exigiram-me uma prefiguração mental exacta que depois veio a anteceder a acção sintetizadora. A preparação foi longa, ao passo que a feitura assumiu a gestualidade, sim, mas em extrema contenção gráfica; e é a isto que também se refere o título da exposição”.

Habitada pela côr luminosa à qual se sobrepõe sempre uma nova película matérica, cada obra é plano de rasgão e revelação de sentidos. Conta-nos a autora: “Interessa-me a estrutura da linguagem, até enquanto modo de expressão de modelos para o pensamento ... A “Metamorfose do Medo”? Esse é o título do meu texto da Agregação na ESBAL e que decorreu de uma experiência pessoal forte, cujo desenvolvimento teórico implicou os conceitos de deriva, fuga, máscara, feitiço, morte ... Mas penso que, hoje em dia, na sociedade ocidental e urbana, o medo é uma emoção menos genuína, um fenómeno de semi-aventura do humano vivido mais em diferido que em transmissão directa, e ainda menos vezes ao vivo. Mesmo quando, como após o 11 de Setembro – e recordando o Al Berto, “o medo anda por aí aos remoínhos”.

Diante de nós, fica este Dilúvio ... como escolha de um resgate. O resgate do imediato que ainda perdura e é devir. São naturezas-vivas, estas vivências moldadas em pintura, contidas em cada instante de um dizer plástico que tudo questiona, mas é portador da possibilidade de pacificação.

|in Arquitectura e Vida Nov 2001©Mafalda Serrano|

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LuminaDivinae® ©2008 Mafalda Serrano