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Caixas-Conjunto 1 e 2 @Leda Cruz

Caixas-Conjunto 1 e 2 @Leda Cruz

Entre Paredes

A descoberta do trabalho de Leda Cruz sempre acontece por via do espanto e do desafio que nos são lançados por cada uma das suas propostas estéticas. De regresso ao lugar do espanto é com ela que conversamos, soltando pensamentos e palavras em redor das obras expostas e das histórias que elas resgatam à própria vida.

Recorrendo a um imaginário feminino onde também se inscreve uma certa ideia de corpo, relemos o título de uma das suas peças apresentadas sob a transparência do vidro. Rumo ao elogio do táctil, ao lado fica a pequena frase transcrita em tira. O olhar descodifica-a como legenda cinematográfica: Tenho um Coração de Ouro.

Entre Paredes apresenta-nos algumas das últimas obras de Leda Cruz, autora nascida no Brasil "onde fez a sua licenciatura em História, vive em Lisboa desde os anos 80 (...)". O texto introdutório de Arthur Neto é o ponto de partida para percorrer algumas das etapas de um trabalho trabalho envolto em vivências e pesquisas centradas nas práticas sociais, antropológicas e culturais da vivência de identidade. Ainda que esta seja traçada pela dor ou brutalidade, pela complexidade ou paixão, tal como nos diz Leda Cruz. "Eu nasci na Bahia, sim. Um local imbuído da presença de África, das cores e ritmos que mais tarde haveria de encontrar em Angola. E desde sempre a minha vida e obra caminharam no sentido da consciencialização do feminino".

A sua formação inicial fez-se em Psicologia, ainda em pleno quotidiano da ditadura militar brasileira, seguindo-se depois a opção pela História, "talvez pelo seu lado mais realista e actuante". Colaborando num projecto de investigação para o estudo de temas ligados à presença escrava na Bahia, Leda Cruz viajou para Luanda completando um ciclo vital de estudos sobre a África pré-colonial. "Sabe, quando chego em 1984 a Angola descobri um país marcado pelos vestígios de guerra, com todo o aparato militar. Organizei o meu quotidiano numa casa onde apenas dois homens tinham vivido, num quadro típico de cooperação e intenso esforço de adaptação. Cheguei a frequentar a União de Escritores Angolanos e foi aí que conheci Luandino Vieira, por exemplo, um amigo que não revejo há já alguns anos". Leda Cruz fala depois da sua experiência ligada à prática da cerâmica em atelier, desenvolvida ainda em Luanda, onde o barro obedecia a uma crescente vontade de “abstractizar a forma”.

A chegada a Portugal possibilita-lhe o primeiro contacto com a escola do ARCO onde completa a formação em Escultura e o Curso Avançado em Artes Plásticas. Pelo meio ficavam os anos vividos na cidade de Leiria, o contacto com a Galeria Quattro onde expõe desde 1994 e a experiência na tapeçaria desenvolvida com Teresa Pavão. "Depois do barro, interessava-me a experimentação plástica de outros materiais e misturas, o marfim e a terra, por exemplo. A minha decisão de entrega à linguagem da escultura contemporânea acontece sob a orientação de Angela Ferreira. Toda a minha obra está marcada pela noção de corpo, sim. E também pela escrita, como nestes desenhos sobre papel e que agora exponho e nos quais transcrevi alguns fragmentos de Hilda Hilst, Sylvia Plath ou Laurie Anderson, para além dos aforismos cuja forma e conteúdo recomponho e transformo": O Amor (não) Mata.

A leitura visual do trabalho de Leda Cruz implica também a experiência do corpo como receptáculo de imagens culturalmente inscritas. Remete-nos para o princípio da depuração plástica e simbólica operadas entre componentes discursivos e visuais. Assim ocorre desde a realização de um primeiro trabalho que a autora designa por Arquivo e que agora será revisto a propósito da sua próxima exposição a apresentar na Biblioteca da Canning House de Londres entre 18 e 30 de Junho. "À semelhança do trabalho desenvolvido para Entre Paredes, o novo projecto implica a ideia de corpo vazado, o tema da presença e da ausência, os traços plurais ou singulares – até auto-biográficos – que nos devolvem a questão da identidade. O Arquivo alcança a altura do peito e é composto por placas de vidro sobrepostas nas quais disponho fotocópias ou desenhos em papel vegetal. Jogo com a nossa memória da ancestralidade através da pintura facial das mulheres índias do pantanal e também de alguns auto-retratos. Interessa-me a ideia de uma perspectiva escultórica, a noção de caixa enquanto receptáculo, talvez como representação da abertura ou fechamento".

Estas exposições integram, assim, um conjunto de objectos escultóricos e desenhos sobre papel que nos conduzem ao universo dos ritos e da identidade feminina como instâncias de encenação metafórica de cores, texturas e matérias. Existem as polaroids utilizadas como extensões do desenho e a sua série de caixas de vidro subordinadas a quatro andamentos possíveis: das Mulheres que Esperam às Mulheres que Morrem, Mulheres que Escapam e Mulheres que Resistem. Um pouco como quem exercita plasticamente o tema da cumplicidade, Leda Cruz acrescenta: "Sabe, eu acho que essa mecha de lã dentro da caixa, por exemplo, pode significar a própria sabedoria de uma sujeição histórica do feminino. Essa consciência cultural das práticas de violência, as violações exercidas sobre a mulher pelos mineiros e madeireiros na Amazonia, por exemplo. Ou talvez a memória de Cleópatra numa sabedoria subjacente aos nossos gestos do quotidiano; a blusa de arame farpado fala disso, também. E o vermelho na textura envolvente do veludo de lã possui toda a carga visual e sexual que conhecemos".

Depois de Lisboa, outras obras de Leda Cruz viajarão assim, até Inglaterra reavaliando para outros espaços, este e outros imaginários; talvez as mesmas constantes no quotidiano de um outro idioma. E sabemos que a cada olhar, ficará sempre a promessa deixada pelos gestos de invenção de uma mulher que sempre sente, sabe e lembra. Cada corpo e cada objecto podem ser dor, fruto, paixão e arte, ou verdadeira sabedoria do desenraízamento. Talvez porque "o amor, a gente vai fazendo"; como ainda nos diz Leda Cruz, encerrando a conversa com um sorriso: o Verbo e a Mulher nunca se negam à expressão do absoluto.

| in Revista Humanidades 2000 © Mafalda Serrano |

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2000, 2004 © | Lia Menna Barreto

 

Escultura

Ainda hoje Lia recorda alguns ritos de infância: o ter plantado feijões e milho em pequenos pires, quase jardins secretos que depois adquiriam uma vida própria. E o ter brincado sempre com bonecas. “Trabalho estes mesmos materiais desde criança. Eles povoam o meu atelier. Um dos pilares da minha obra é o retomar desses movimentos infantis, desmontando e remontando objectos, mas agora observando com um olhar adulto. Penso que a minha obra começou assim.”
Lia Menna Barreto ainda colecciona bonecas, algumas são ciclicamente manufacturadas e depois oferecidas por outros; outras ganham corpo nas suas mãos e transforma-se em receptáculos onde a artista embebe pequenos animais, raízes, caules ou folhas de plantas vivas. Daí que o seu trabalho nos diga da natureza potencial transformada de cada objecto, acordando em nós uma certa ideia de semente, como Ser em devir. “Cada uma das minhas peças possui uma vida própria, sim. Ao colocar uma planta dentro de uma boneca eu insisto na ideia de ritual e na questão da proximidade quotidiana que será necessária desde o início da relação entre a pessoa e a obra, para a manutenção desse corpo vivo. O Pedro Cera teve de cuidar de cada uma das minhas peças diariamente, tal como todas as pessoas que um dia se decidem a adoptar algumas delas. As minhas obras pedem um envolvimento”. E trazem em si um potencial de reflexão sobre a natureza relacional da arte abrindo lugar a um novo território de afectos.

Lia Menna Barreto [Rio de Janeiro, n.1959] viajou um dia até Rio Grande do Sul, onde ainda hoje vive e trabalha. Mas a matriz processual do seu trabalho assenta sempre na proximidade em relação à matéria e à natureza, como quem busca o coração que pulsa, escondido sob cada forma. Trabalhando obras que reflectem os grandes cortes da infância, as rupturas em gume da vida – um trabalho que “regressa ao porão do inconsciente para repegar certos objectos da memória” -, Lia concebe organismos mutantes onde se congregam resíduos da vida de atelier e do Tempo. “Quando a minha filha Lara nasceu, construi cerca de 400 bonecas, para além de ter cuidado de uma outra que permanecia viva. Foi assim que nasceu o meu Diário de uma Boneca".

Boneca(s) com Planta(s), Sem Título(s) e Máquina de Bordar são os nomes dados a algumas destas obras que testemunham uma viragem fundamental occorrida em 1995, quando Lia começa a interessar-se pela constituição destas formas de “vida silenciosa. A escolha dos materiais começou por servir-lhe como à priori semântico”, tal como nos conta e escreve Lisette Lagnado no texto de apresentação incluido no belíssimo catálogo da individual apresentada na Galeria Pedro Cera de Lisboa, recém-chegada da Camargo Vilaça de S.Paulo. Com essa escolha, Lia traçou o mapa de uma pesquisa simbólica original que por vezes nos lembra certos universos escatológicos; outras segue rumo à estética do surrealismo que lhe é tão próxima. “Sim, é isso. Em especial quando mexo com o inconsciente. Tenho uma imensa emoção enquanto trabalho, sabe que nunca sobrevém o medo? ...Para mim o Belo é pura emoção". Daí que cada uma destas obras de arte de Lia Menna Barreto possua voz própria e possa acompanhar-nos intima e secretamente pelos lugares. Lia Menna Barreto recria objectos partindo de dentro, quebrando amarras e reatando laços naturais de vida.

|in Revista Arquitectura e Vida Junho ©2000 Mafalda Serrano |!

Escultura 2000 | Alizarim, Crimson and White 2004 © | Lia Menna Barreto

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Masculine Box | 2000 ©  Lidija  Kolovrat|

Masculine Box 2000 © Lidija Kolovrat

Spoon Fed Concept

A exposição tem a dimensão de uma narrativa, encenação gerada em torno da ideia de arquitectura do corpo. Aqui existe um corpo múltiplo que é instância de ruptura e presentificação; um corpo-espelho do Tempo que nele se inscreve e o recria ao sabor da imaginação.

Matéria, luz e espaço: são três os elementos essenciais da construção plástica desta autora que confessa ter querido “estudar cinema, prefigurando um pouco uma futura vocação performativa”. É também assim que Luis Serpa nos apresenta este projecto implicado na reinvenção do próprio espaço galerístico através do cruzamento de suportes e linguagens. Uma estrutura de trabalho em rede lembrando que – a cada possibilidade de interacção entre práticas, suportes e disciplinas -, o artista afirma-se como coreógrafo e co-criador de mundos de carácter natural ou industrial.

“O meu trabalho centra-se na ideia de sujeito, jogo e teatralidade, na noção de duplo. Mas o processo de produção cinematográfica indiciava uma feitura lenta também condicionada pelo contexto político da época ... Kusturica é só um e o sistema instituído ditava a dominante”, afirma Lidija Kolovrat. Nasceu em 1962 na Bósnia, onde começou por ingressar na Academia de Cinema de Zagreb. Seguiram-se os estudos na Escola Superior de Design Têxtil e de Moda da mesma cidade, antecedendo a inauguração do Atelier Savitri que viria a encerrar em finais da década de 80. “Quis que essa primeira oficina de composição adoptasse o nome da deusa hindú. Na altura achei que tinha a ver comigo, também com o meu modo de entender o corpo e cada uma das peças, centrado-me sempre na questão da relação interior/exterior. É verdade que, para mim, a roupa é essencialmente ideia”.

A sua chegada a Portugal coincide com a escolha de um outro contexto para dar vida ao projecto de pesquisa experimental então interrompido e antecede um breve regresso ao país natal, apostando num programa de teatro contemporâneo extensivo a outros pontos da Europa. Ainda em 92, Lidija Kolovrat passa a divulgar o seu trabalho em Paris e Amesterdão, participa em várias mostras portuguesas – apresentando as instalações realizadas para os espaços Moira e Vantag de Lisboa e Porto – e dirigindo o workshop Moda e Anti-moda na Aula do Risco. Quando nos conta que, em meados da década de 90, se decide pela reabertura da Galeria Pedro e o Lobo, fala do espanto sentido perante as características do lugar, ideal para o desenvolvimento de um work in progress baseado na interacção entre entre movimento e objecto. “Sabe, a minha maneira de criar sempre partiu de uma plataforma de teatralidade. Aqui, neste espaço que designamos por Kolovrat Lab trabalha uma equipa que também veste particulares. Mas, fundamentalmente, concebem-se projectos. Inventam-se e ensaiam-se coisas”. Daí que a autora também nos fale de Spoon Fed Concept como mostra decorrente da sua pesquisa efectuada sobre a transfiguração do espaço que o corpo habita.

A Galeria Luis Serpa assume agora uma dimensão dupla ditada pela ideia de espelhamento. Pode ser visitada como “espaço de loja” e lugar teatralizado ou como intimate room, onde as peças - geradas entre o tailoring cut da alta costura, a cenografia e as artes plásticas – foram trabalhadas como cenários de pintura mural, aludindo à metáfora da criação de mundos. Percorrendo esta exposição, o olhar assume uma dimensão expectante e voyeur percorrendo narrativas pelas quais a matéria é linguagem, ensaio e estratégia de (im)permanência.

Agora descerramos caixas com Lidija Kolovrat, um pouco como quem busca e desvela sinais ou indícios. Vem-nos à mão um nome: Cinderela Dream, por exemplo. “Ah, sim ... Esta é uma peça com meia dupla. Aqui a meia simboliza a alma; uma outra pele que a personagem poderia ter perdido por esquecimento. Às vezes esquecemo-nos da nossa própria identidade, não é? O sapato de cetim é um arquétipo dos anos 60. Penso que , mais do que antes, esta exposição é definitivamente muito joking itself”.

Foi igualmente pelo pensamento do corpo que In-Between, exposição realizada em 1997 também em colaboração com a Galeria Luis Serpa, nos deu a conhecer Androgénio - uma certa blusa com mangas inseparáveis – e a sua ideia de metamorfose operada desde o interior da peça. Talvez tenha sido este gosto por coreografar esculpindo em redor do binómio sujeito/objecto, a conduzir Lidija Kolovrat à criação de figurinos para Stop and Start Again e Anjos, Arcanjos, Querubins e Serafins de Olga Roriz... Fica no ar a pergunta.

“Isso tem graça ... O que é um objecto? É aquilo que pára depois do movimento. É talvez o que surge do jogo humorístico entre o exercício da função e a sua ausência”. Com Spoon Fed Concept passam a existir novos objectos de culto, acrescentaríamos nós. Eventualmente criados ao som de Thelenious Monk, Cecil Taylor e Meredith Monk. Corpos nascidos da música, exactamente; porque submetendo o olhar ao desejo, percorrendo o perfil-fétiche, diarístico e cinematográfico de cada peça, ficará sempre em nós a promessa: um dia escutaremos a secreta voz do corpo, alma e matéria.

in Revista Arquitectura e Vida 2000 © Mafalda Serrano

todas as imagens usadas com permissão dos autores

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LuminaDivinae® ©2008 Mafalda Serrano