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n a t h a n _c o y l e

2001 | Nathan Coley

The Land Marked

Sabemos já que Nathan Coley (N.H., n. Glasgow, 1967) é um dos artistas escoceses vem pautando o seu trabalho pela exploração de elementos plásticos e estéticos desenvolvidos em torno das ressonâncias psicológicas dos edifícios em contexto urbano, referindo-se assim a processos de simbolização e construção de significados. Operando a um nível de conceptualização onde interagem os princípios de significado e relevância do monumento contemporâneo e o valor social da arquitectura, para além do conceito de espaço público no domínio arquitectónico, o autor desenvolve um trabalho concretizado em múltiplos suportes. Desde o audio-vídeo, utilizado em grande parte das suas instalações – e que N.C. assume como instância central de significação -, à fotografia, texto ou outros meios de edição e publicação foirmal. Afirma o autor: “Em The Land Marked comecei por articular as referências documentais do Arquivo Nacional de Fotografia no plano visual com as linhas de discussão levantadas pelo tema da própria inserção da obra contemporânea no espaço museológico; sendo este, afinal, o próprio tema geral do Project Room. Trata-se, para mim, de abordar a questão dos enquadramentos históricos e dos planos discursivos, simbólicos e culturais inerentes a cada uma das obras arquitectónicas circundantes: o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o próprio Centro Cultural de Belém. Para além dos pressupostos teóricos e morais inerentes à decisão arquitectónica tomada para o local, o meu filme animado apenas pretende questionar a tomada de decisão enquanto acto inscritivo e averiguar quais as suas consequências culturais. A questão que coloco é esta: O que aconteceria se a Torre de Belém tivesse desaparecido conservando-se antes a antiga Fábrica de Gás existente no local? Qual seria a realidade alternativa do lugar? Penso ser esta a questão fundamental, daí ter optado por ficcionar sobre as variantes possíveis”.

O filme de animação a que N.C. se refere é concebido para legitimar a concepção dos novos trabalhos que agora integra em mais um Ciclo de Project Room, uma iniciativa comissariada por Jürgen Bock, também responsável pela direcção da escola de arte portuguesa MauMaus. A obra assenta no interesse pessoal do autor por ste tipo de discussões de conteúdo e usa como fonte compositiva e base material o material seleccionado no Arquivo Fotográfico de Lisboa e no Centro de Documentação do Mosteiro dos Jerónimos. Seguindo a mesma linha de estruturação plástica de conteúdos por estabelecimento de intertextualidades, o artista realizara recentemente um vídeo na qual se refere a um vôo de bombardeiros que utilizando o cenário da Segunda Grande Guerra, escolhe a Catedral de Münster como ponto de mira. Já nessa obra optara por uma estratégia de mapeamento territorial do lugar como fundamento da sua obra: “Tal como em The Land Marked, nesse meu trabalho concebido para o Westfälischer Kunstverein na Alemanha considerei ser, o elemento arquitectónico, susceptível de uma redução ao plano objectual. Através do distanciamento do espectador, opero uma deslocação do olhar relativamente ao plano tradicional de significação e é aí que tem lugar a transfiguração de referentes que me interessa. Só reduzindo o monumento à condição de objecto posso trabalhar o mapeamento territorial do local onde ele se inscreve ... E depois, o mapa a desocultar, a pista e o caminho a seguir, consiste afinal numa descoberta do modo como as aspirações, crenças ou dados de valor se tornam físicamente manifestos na construção do espaço. E sim, claro que também considero o próprio espaço como elemento orgânico”.

Quando lhe recordamos o mito platónico da caverna a propósito da gestão da sombra e luz como estratégia de desocultação das essências – questão essencial à leitura do objecto arquitectónico como corpo esculpido, resgatado ao vazio, e à consideração das tensões entre as noções de real e irreal na compreensão do espaço -, N.C. recorda os pressupostos de trabalhos anteriores como em In Visible Light (1998), obra criada para o Moderna Museet de Estocolmo, e Demolition In Progress –em colaboração com Thomas Bechinger – para além de Urban Sanctuary/A Public Art Work, em Edimburgo; ambas de 1997, a última das quais originaria a realização e publicação e oito entrevistas a diferentes operadores e fruidoes do espaço públco. “É verdade que aí quase existiu uma colagem do autor ao plano do receptor da obra ... “, afirma sorrindo. “Desde o início que sempre me interessei pelos modos de estruturação do espaço. Isso aconteceu até nas Belas Artes, em Glasgow. Decidi conversar com um arquitecto e um sociólogo, um teólogo, um consultor de Feng Shui e um polícia, tentando averiguar os seus modos de entender o espaço público do ponto de vista da ideia de santuário urbano. Interessa-me igualmente a apresentação das variantes possíveis de leitura do lugar, um pouco como em The Land Marked”. Mas, neste projecto de Lisboa, a tónica reside não no significado histórico-moral do monumento, mas sim na sua re-apresentação despojada de carga emocional. O autor trabalha desmontando memórias, um pouco como quem recorda e sonha com a arquitectura em grau zero. Um desenho criador de mundos habitáveis, por vezes tão próximo da intimidade do corpo da escrita.

 

| in Arquitectura e Vida 2001 ©Mafalda Serrano|

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2000 | Nuno Ribeiro

Project Room

Nuno Ribeiro (N.R.) nasceu em Lisboa no ano de 1975 e a sua formação académica inicial decorreu na faculdade de Arquitectura da ESBAL e na Escola de Artes Visuais Mausmau. “É isto, tudo aconteceu paralelamente. Depois candidatei-me a um Mestrado no Departamento de Vídeo da School of th Arts Institute de Chicago, onde agora completei um ano de estudos. Hoje em dia, intercala as passagens por Portugal e a permanência nos Estados Unidos, tendo já apresentado os seus trabalhos em diferentes locais. As primeiras manifestações públicas aconteceram ainda no âmbito das parcerias de trabalho estabelecidas na Mausmau, seguindo em 97 para Pankow (Berlim) com Show me Pankow e para a LandenGallery de Munique, com a obra LH4665. “Colaborava com colegas da escola, na altura. Interessei-me bastante pelos desempenhos de carácter performativo e também pela ideia de site specific, por vezes concretizados em eventos de um dia”.

O trabalho deste jovem autor português surge agora inserido no programa de apresentações de pesquisas individuais concretizadas no âmbito deste ciclo de Project Room, a decorrer até Maio de 2001 no Centro Cultural de Belém. Apostando na produção actual representada por autores das denominadas Tendências Interventivas, o projecto expositivo aborda questões como as da multidisciplinariedade, da arte como serviço, da avaliação do papel do espectador e do retorno à realidade. Jürgen Bock, docente da Escola Mausmau é o responsável pela curadoria deste programa, realizado numa área de 150m2 localizada no Grande hall de Exposições.

Espacialidade e temporalidade são referências que ocupam agora um papel central nas pesquisas de N.R, através da descontextualização de elementos do seu ambiente original e da sua reintegração numa nova ordem lógica que incorpora ainda aspectos autobiográficos. Pra o autor, esta etapa desenvolve-se numa clara linha de continuidade: “interesso-me profundamente pela arquitectura e prossigo as minhas pesquisas sobre a funcionalização do espaço e o seu uso público ou museológico. Neste trabalho, mais precisamente, considerei expressamente o local da exposição e aquele que lhe é exterior, um pouco na linha de trabalho desenvolvido na Mausmau”.
Seguindo as suas palavras, a entrega ao trabalho sobre suporte fotográfico surgiu igualmente por sequência, “enquanto olhava pela objectiva da câmara e procurava isolar uma imagem”. N.R. recorre frequentemente a meios técnicos e referentes de carácter científico que, quando aliados aos suportes audio e vídeo, nos remetem para um terreno de averiguação das condições do conhecimento. Um poco como também nos sugerem as suas sequências de congelamento da imagem ao longo dos cerca de 20 minutos que poderá durar a gestação visual de um falso suspense, ou a abertura psicológica do espectador ao inesperado. Trata-se, aqui, de um modo de encenação da surpresa, como afirma ainda o autor. É assim que, percorrendo este Project Room encenado por N.R. somos individual e colectivamente confrontados com a existência de um jogo múltiplo de (des)montagem e (des)codificação dos planos de existência material e invenção próprios de cada obra.”Isso acontece também quando filmo,” continua o autor, “porque o meu processo de criação visual está cada vez mais próximo da ideia de pré-produção. Posso começar por recolher imagens da Internet, ou isolar ocorrências das histórias que as pessoas me contam”. Depois, N.R. constrói a trama de uma nova tensão vivencial, partindo desta estratégia de absorção de dados e, também por isso, é espectador-autor do seu próprio trabalho. “Escolho a pequena dimensão dos écran planos que cabem na palma da mão. E o público poderá usar headphones, se assim quiser, com três canais de som referentes às imagens vídeo; ao retirá-los, cada um poderá dar entrada numa outra esfera sonora dada pela ambiência de fundo da sala. Criei vários planos, desocultando um pouco daquilo que está subjacente à noção de cidadania e ao homem enquanto ser inscrito num corpo colectivo e social”.

A densidade de sentidos do projecto acontece ainda num outro plano: a proposta de um conceito de temporalidade em espiral que se cruza com o pricípio da territorialidade. É assim isto que acontece, ao olharmos a imagem captada pelo balão atmosférico lançado do Centro Cultural de Belém, avistando desde o pátio ao Tejo ; o mesmo se passa ao escutarmos as palavras resultantes de uma “entrevista autobiográfica sem resposta” que nos recorda a direcção fundamental da obra de N.R.: averiguar o lugar dos saberes num contexto de globalidade. Ou então - estabelecendo ligações entre o humor, o conhecimento e a arte – defender a responsabilização última e cada um de nós perante as escolhas com que desenhamos um percuso de vida.

| in Arquitectura e Vida 2000 ©Mafalda Serrano|

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