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t c h a l é_ f i g u e i r a
O Mindelo é um delírio Apetece
começar esta estória nomeando os princípios presentes
nas actuais pintura de Tchalé Figueira: silêncio, prazer,
ritmo e ironia. São apenas alguns dos conceitos que habitam o
seu discurso e o modo de olhar o Mundo. Começámos pelo
desafio de imaginar referências para o universo das ilhas de Cabo
Verde. Depois, as palavras e os silêncios ganharam asas, em redor
de cada quadro de exposição. Chama-se Carlos Alberto Silva Figueira e nasceu em 1953, na ilha de S, Vicente de Cabo Verde. Mas a história de Tchalé Figueira recomeça quando - à semelhança de tantos outros autores ilhéus -, decide cruzar a fronteira do azul do mar. Já na Europa, escolhe a cidade de Basel para viver e trabalhar, no tempo em que Portugal vivia o anúncio da queda da ditadura salazarista. É na Suíça que permanece, até meados da década de oitenta, frequentando Schüle fur Gestaltung, da mesma cidade, e contactando com algumas das obras e autores de referência do passado e da contemporaneidade. "Sabe, tal como muitos, eu partia de uma vocação plástica inicial, que foi depois trabalhada em termos de consciencialização estética. A vivência e formação na Europa implicaram também uma reestruturação do meu trabalho e na minha maneira de entender a arte. Isso teve enormes consequências, até no meu percurso pessoal. Vivi uma fase de supressão da côr, talvez ditada ainda pelo choque da mudança geogéfica. A minha saída de Cabo Verde implicou uma ruptura completa em termos de paisagem, luminosidade, ritmo de vida. Depois de uma fase sombria – e seguramente mais existencialista -, o regresso à cor e a uma forma não folclórica de figurativismo só aconteceram quando decidi regressar a Cabo Verde." Actualmente,
Tchalé trabalha e reside em Cabo Verde, depois de ter ainda incluído
países como França, Portugal, Estados Unidos, Senegal,
Áustria ou Holanda - onde incrivelmente chegaria a ser marinheiro
-, no seu percurso de vida e de trabalho, "Concordo que o imaginário
de viagem se encontra igualmente expresso nas minhas telas, cuja temática
central será sempre a procura de um entendimento quase que humanista
da noção do Homem. Mas obviamente que me importa directamente
a defesa das gentes e referências culturais de Santo Antão
e S. Vicente, as duas ilhas que, de algum modo, mais marcaram o meu
universo pessoal." Assim nos fala mais um dos autores caboverdianos
cujo discurso plástico e expressivo se assume como intrinsecamente
pluridisciplinar, em busca de uma nova representação do
corpo na sua pintura, ou exercitando sinteticamente a utilização
da cor. A exposição encontra-se em aberto na Galeria Novo
Século, responsável pela representação de
Tchalé Figueira em Portugal. Precisamente, quando nos mostra
A Menina que Perdeu o Sorriso ou Os Três Pinóquios, recordamos
os quatro conceitos que inicialmente citámos a propósito
da sua estruturação pictórica do real: "Ah,
os Três Pinóquios poderão ser o Estado, a Justiça
e a Igreja. Três pilares clássicos da organização
socio-económica que urge questionar no meu País e um pouco
pelo Novo e Velho Mundo. Se acredito na mudança para Cabo Verde?
Desde logo, sim, E acredito ainda na necessidade de reunir alguns dos
artistas que actualmente se encontram a trabalhar no país ou
no exterior; contribuindo para a definição e enriquecimento
do conceito de uma arte contemporânea cabo-verdiana. Poderia falar
no Mito, ou no Alexandre Silva, assim de imediato. E - a um outro nível
-, na importância do investimento na área pedagógica,
tanto ao nível da formação escolar e académica,
quanto numa vertente museológica. É fundamental combater
a arte sem alma e autonomia." Depois de olhar de perto os
seus trabalhos presentes na última FAC 2000 (Feira de Arte Contemporânea
de Lisboa) ou de recordar as suas diversas mostras individuais e participações
nos programas Karantonha de Boston (1997) ou na Bienal de Dakar (1998),
seguimos o ritmo calmo das suas palavras que guardam na memória
o espírito da exposição. O Mindelo é um
Delírio é a designação deste teatro do mundo
onde a crítica de costumes e a referência ao fauvismo de
uma opera buffa caboverdeana são escolhas da Novo Século
para a sua presença na já próxima ARCO de Madrid.
E quase apetece lembrar a coreografia das imagens também presente
na escrita de Tchalé Figueira, alma gémea da sua pintura.
À saída da exposição, perdura em nós
a "música de silêncio" gerada no encontro
com pintor habitante das muitas ilhas. |in Arquitectura e Vida Fevereiro 2001|
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