No princípio
foi dito: Faça-se Luz ...
... E pela Luz principiou
a ordem das coisas. LuminaDivinae é uma expressão por mim imaginada para designar o mito do Fogo primordial
como instrumento da Criação; o fluxo energético
que anima e vivifica a natureza, a arte e existência humanas.
Nas antigas narrativas o mito da luz associa-se ao sangue e à
grande herança matriarcal. O escritos hinduistas designam por
Manipura - a cidade das jóias -, esse centro de vida que habita
o plexo solar na geografia do corpo. C. G. Jung compara-o ao caldeirão
alquímico onde, ao longo da vida, integramos os demónios
e polaridades da psique humana.
Manipura
é a primeira metáfora de uma imagem cósmica em
que o Ser integra livre vontade e Consciência. Surge representada
como uma flor azul de dez pétalas, cuja forma se associa à
rotação dos grandes ciclos da existência personificados
pelos deuses Shiva , com o Cordeiro Agni ; o animal do fogo sacrificial
do Antigo Testamento. Nesta mítica cidade de luz, inscrevem-se
dez letras do alfabeto sânscrito referentes a RA ou RAM, localizado
sobre réhem - o útero - ou berço matriarcal do
Ser. Em toda a bacia do Mediterrâneo, as elevações
de superfície são designadas como umbigos da terra, tal
como a Estrela Polar é também chamada de guia, lumina ou umbigo do céu.
Olhando
a Este, os mestres hindús executam o suryanamaskar, saudando
o Sol ao nascer o dia. A
marca de Fogo identifica assim o ponto entre matéria e espiritualidade,
a junção dos micro e macrocosmos. O Mestre cabalísta
designa Tiféret como o fruto do meio na Árvore da Vida,
a esfera espiritual da Beleza como sabedoria do coração
e da consciência: só através da integração
de ambas estabelecemos contacto com a luz interior revelada entre o
Céu e a Terra. Segundo a psicologia jungiana, a verdadeira função
lunar é a da prefiguração do Todo pela união
das partes, sendo a luz que revela as zonas sombrias do inconsciente
e orienta o sujeito para a espiritualidade. Reconhecido por alguns como
o Caminho do Meio - ou o Verdadeiro Caminho –, no processo de
individuação somos peregrinos em busca do acordo guardados
para as etapas seguintes da Viagem.
Os Cânticos
descrevem Manipura sob a forma de cálice em meia lua, onde a
nova luz de Anahata - o coração imutável - tem
raíz. E tal como o Coração é imagem do Self
- expressando a identidade solar do Homem -, para a imaginação
mítica, ele simboliza a unidade vital da criação
e integra a ambivalência do poder gerador ou destruidor da luz.
O mesmo acontece com o mito das maçãs douradas que Gaia,
a Mãe Terra do Oráculo de Delfos, terá
oferecido a Zeus e Hera no jardim das Hespérides. Como o lótus
vermelho, o coração do lume é o fruto alcançado
pelo Sujeito no labor de conhecimento compassivo do Eu e do Cosmos.
Finalmente, o mistério da arte está contido no fogo invisível: O verdadeiro fogo é inextinguível (...). Os filósofos
chamam-lhe a chama do Espírito Santo... Onde não há
Fogo, não existe Luz (C.G.Jung).
Lumina significa literalmente luzes; mas também revelar por acção da luz, inspirar, clarificar. Divinae é a expressão que abrange o imaginário do Sagrado Feminino, daquilo que é divino, mítico e natural. Cada uma
das secções de LuminaDivinae é
apenas uma pequena janela aberta sobre trabalhos feitos em redor da
arte. Correspondem a momentos profissionais e pessoais. São Memórias da Luz que perdura no Tempo.